quarta-feira, 17 de outubro de 2007

BAR DA POMBA AMESTRADA

DA SÉRIE "PEGA-BEBOS DESSE MUNDO DE MEU DEUS":

Tudo que não é combinado e de última hora parece ser melhor.

Sábado passado eu e o Pablito, meio que por acaso, descobrimos essa pérola de lugar - exemplo vernacular, puro e genuíno das bodegas de interior do meu aprazível Nordeste Brasileiro.
Em Recife no feriadão, com o saco já criando eczema de tanto coçar, resolvemos dar uma passadinha em Gravatá na casa de um amigo, onde rolava um churrasco devidamente patrocinado pelo seu sogro, e nós na maior cara-de-aço, não fizemos qualquer cerimônia em piratear o espaço.

Só que ao acabar a cerveja, bateu a dor na consciência dos dois velhos corsários da cachaça... Partimos para o centro da cidade, com a desculpa de comprar o precisoso líquido, mas na verdade o que a gente queria mesmo era dar uma conferida na qualidade das matutinhas do lugar.
Fim de tarde e eis que no entra-pra-lá-sai-pra-cá naquele emaranhado de vielas desconhecidas, num erro de roteiro caímos numa tal de Rua do Sol, onde terminamos por encontrar o nosso Eldorado: uma bodeguinha sem placa, de 4 portas dando pra calçada e balcão de madeira, uma grande mesa coletiva, local perfeito para uma gelada. Olhei pro Pablito, e nem precisei falar... sua cara já denunciava a resposta: _ É aqui!!!

Entramos sorrateiros, como que em reverência à tranqüilidade do local... pedimos uma mofada à senhora que atendia, que nos olhou de viés, num misto de surpresa e desconcerto, um tanto quanto desacostumada à visita de forasteiros curiosos que correm com olhos nervosos toda a sua birosca.
O cenário era perfeito: produtos pendurados acima do balcão, este repleto de frascos com confeitos, mariolas, pirulitos, bolas-de-gude... Um velho paneleiro no fundo do salão, uma TV em preto-e-branco com bombril nas antenas e aquela imagem embassada - ligada na novela das sete, centenas de posters e fotos do proprietário, um ex-goleiro do futebol amador local, e o mais interessante: uma pombinha empoleirada num canto de parede... livre, leve e solta, dando eventuais rasantes pela nossa mesa.

_ Chama ela com a mão que ela vem! Disse a senhora, já descontraída e bem receptiva, após eu ganhar a sua confiança com largos sorrisos e muitos por-favores...

Mais grosso que o papel de embrulhar fubá que estava acima do balcão, mais insensível que paciente sob efeito de raqui-anestesia, Pablito disse logo: _ Essa pomba vai derrubar os copos da gente, minha véia!!!Vai nada... enquanto rolava a cerveja bem gelada, a pomba amestrada do goleiro ficou lá na dela, comendo seu xerém no cantinho da mesa, fazendo suas estrepolias e dando o ar da graça do estabelecimento...

O que era somente uma gelada para averiguações botequescas, virou quase meia grade... Ouvindo o maravilhoso álbum Se Acaso Você Chegasse de Elza Soares, esquecemos a churrascada e ficamos ali mesmo no agradável bate-papo de calçada, que fluia belezau com a cervejinha na cabeça.Cerveja que espaireceu a mente e refrescou a alma, deixando aquela sensação que estes momentos - por mais simples e casuais que possam parecer, são sempre os mais especiais para celebrar a vida e a amizade.

Afinal, nem só de fuleiragem vive o homem.

(Pra quem quiser conhecer o Bar da Pomba Amestrada, é só entrar em Gravatá e, próximo a Telemar, perguntar onde fica a Rua do Sol. Fica no final da rua, não tem errada! Da próxima vez, a dona prometeu que o bichinho estará devidamente trajado com gravatinha borboleta e servindo o povo)

0 Pitacos. Dê o seu pro AF aqui você também!: